quinta-feira, setembro 01, 2005

Presidenciais

Um dos meus defeitos é gostar de política. Já me importei mais com isso. Sobretudo porque, tenho cá para mim, ninguém é perfeito. E, tendo em consideração outras opções (como o Tuning, as colecções de soldadinhos de chumbo, o tiro aos pratos ou o Magic), despender tempo com política parece-me um passatempo tão válido como outro qualquer. Pena é que este hobbie me sujeite a “lesões”, tal e qual qualquer outro (sim, eu acho que os tipos do Magic também têm “lesões”...).

Esta actividade tem vivido dias fartos. Tão fartos que todas as outras questões pendentes hibernaram (tipo défices, incêndios ou integração de imigrantes). E eu alinho, dou por mim também a pensar nisto.
Quando Manuel Alegre começou a discursar, senti o mesmo que há uns tempos, quando ele se candidatou a líder do PS. Que era uma pessoa lúcida, genuinamente preocupada e intelectualmente honesta. Senti também que não iria ganhar, que o cargo em causa necessitava de mais juventude e que o eleitor típico do PS estaria a pensar noutro tipo de valores. Mas, confesso que me identifiquei com as suas preocupações. Anteontem, quando começou a discursar, voltou-me convencer. A candidatura de Mário Soares é má para a República.
Não sei se a dele seria suficientemente boa, mas percebi que não tinha apoios (nomeadamente de Soares...); percebi também (ou julgo ter percebido) que não era fácil candidatar-se e correr o risco de “fracturar” a esquerda eclipsando uma segunda volta (com eleição directa de Cavaco logo na primeira). Não era fácil e quem disser o contrário é ingénuo. Mas, mas... mas fiquei com uma sensação de vazio (apesar de nem sequer saber em quem eu votaria) ao aperceber-me que ele não se vai candidatar. Acho que perdemos sempre algo quando deitamos fora alguma verdade. Foi a primeira lesão.

O hotel Altis estava a abarrotar. E considero algumas das pessoas que o enchiam como idóneas, exemplares, de facto relevantes. Em relação a Mário Soares, tenho sentimentos dúbios, às vezes concordei, às vezes discordei; às vezes aplaudi, às vezes apupei. Não é pela idade que considero mau que se candidate (embora a mesma não ajude). Não achei mal que Freitas do Amaral (de quem não consigo identificar a actual área política) fosse para o Governo. Se ele percebe do assunto, é capaz de desempenhar as funções e é marcadamente melhor opção que muitos da actual geração política, porque não?
Mas o caso de Soares é outro. Continuava a ser importante na política portuguesa como opinião avaliada em certos assuntos. É importante ter antigos presidentes vivos e de saúde, que abandonem a política activa e digam o que lhes vai na alma quando um George Bush qualquer avança para uma guerra imprudente e de argumentos débeis para um qualquer Iraque. Que não têm nada a perder, que dizem de viva voz o que outros hesitam em reconhecer, porque assim também prestam um papel precioso. Mas voltar em postura monárquica, cedendo à tentação de aglutinar o poder que já conhece e esquecer a natureza do regime em que vive, não creio que seja correcto. Parece-me que é andar demasiado para trás. Não existe mais ninguém?
A lesão? Bem, a lesão foi ver essas tais pessoas que tanto considero com um brilho nos olhos, por sentirem que aquela é uma boa candidatura para Portugal. Foi reconhecer que Mário Soares tem coragem, determinação, vontade e que aquilo que escolheu fazer, em termos de disponibilidade pessoal, tem de ser digno de louvor. E ele não é com certeza o único responsável por outros se esquivarem.
Assim confundiram-me os sentimentos, baralharam-me. E, reconheço envergonhadamente, anseio por um debate televisivo entre Cavaco e Soares, por muito pouco que isso contribua de facto para a política Portuguesa.
Lx

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