terça-feira, dezembro 13, 2005

Intimidades

E estava eu a estranhar que um inter-cidades parasse 15 minutos entre duas estações. Estava-se-me a crescer aquela larica, já estava a ficar um bocado farto do livro e nem sequer me apetecia continuar a ouvir música. Com o comboio a andar, o bicho carpinteiro ainda adormece.
Pelo sim pelo não, comecei a preparar-me para uma meia hora de atraso à chegada. Mas findos os telefonemas, os maus espíritos emergem. Ainda resisto, numa primeira fase.
Retomada a marcha, um zeloso funcionário anuncia: “Em virtude de obras na linha, da responsabilidade da Refer, este comboio tem a sua marcha atrasada em 20 minutos”. “Saia então post” - pensei eu.

Um amigo meu deu-me uma vez conta da sua tentativa de começar a ler a Bíblia (a dos Apóstolos). Segundo ele, a vontade desvaneceu-se assim que foi confrontado com a genealogia do sagrado: este é filho daquele, tio do outro, por sua vez bisneto de um terceiro camandro. Um Homem ainda chega a umas teologias parabólicas, agora à devassa da intimidade alheia...

No essencial, e após 2 horas de viagem, estou-me bastante a borrifar que a empresa que gere as linhas seja a responsável pelo atraso do comboio. Sinceramente.
A Refer não é sobejamente conhecida da CP? Não eram estes os tipos que andavam a trocar de lugares de administração (tudo legalíssimo)? Que tal utilizarem as energias (= dinheiro) a avisarem-me, antes de eu entrar no comboio, que vai haver uma reparação? E que tal uma entidade reguladora (a sério, não daquelas que parecem uma invenção exótica de um conselho de ministros, entre dois escândalos de telejornal), para assegurar um funcionamento normal de certos serviços.
Antes que o distinto neoliberal comece a espernear louvores à economia de mercado (“E tu queres é emprego!”), desde já explicito que me parece (embora tenha todo o interesse académico em ouvir argumentos em contrário) que apenas privatizações num mercado escasso como o nosso não permitem alcançar um resultado que defenda o consumidor. Neste caso, eu.
E não, não morri nem fiquei assim tão pior. Contudo, e perdoem-me a extrapolação indevida, lembrei-me logo da privatização da ANA para o financiamento da OTA.
Lx

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