domingo, outubro 23, 2005

“Army of me”

Já conseguia ver a linha de partida e sentia algum nervoso miudinho. Não daquela ansiedade, da das competições; hoje a questão resumia-se a conseguir acabar. De preferência antes da hora e cinco minutos.
Os treinos tinham sido alguns, escassos, contudo, para encarar confiante os 10 Km em causa. Normalmente, estava a ficar-me pelos 5/6, mas, há duas semanas, por sugestão de um colega de sala (verdadeiro "camelo doente" destes eventos, com presença regular nas meias), eu e outro dos de hoje experimentámos alinhar na sugestão dada:
Cais do Sodré – Algés – cais do Sodré; +/- 16 km: 1h 34m 31s e quase que tinha ali o filho.
Volvida uma semana, sem o entusiasta, Cais do Sodré – Torre de Belém – Alcântara uns metros; cerca de 10 km: 1h 3m 2s e ai que ainda me doem as pernas de há uma semana.

Um chinfrim danado, com uns tipos a sugerirem que o meu aquecimento passasse pelo Body-Combat. Que me perdoem os adeptos da coisa (malta fixe, o problema deve ser meu) mas não, obrigado. Já tinha feito alguns alongamentos e, como suspeitava, o joelho esquerdo ainda não estava lá muito apto. Evitem-se então palermices.
Partida, os 2 primeiros mil foram para descobrir o ritmo e o grupo de 4 dividiu-se em dois de 2. Eu nos de trás. Algum calor, vamos ver o que isto dá. Muita gente a passar-me, eu a passar alguns. A primeira subida, é pequena (menos de 25 m), está bem, mas isto está a custar. Aparece a placa dos 2 e eu descubro que ao joelho direito, afinal, também lhe parece que não.
Fase dura, sente-se o calor; o objectivo é acabar, calma. Até aos 4 lembrei-me das más ideias. O programa, ontem, até tinha sido propositadamente calmo, até só fui beber um café a seguir… mas 5 horas de sono, estava-se a adivinhar. As “traineiras” (não são nenhumas destas, mas pertencem à mesma laia). Pois, devia ter comprado daquele, mais adequado; os gémeos queixam-se. Os anos de nicotina. E os de pouco exercício. Os de mau exercício. Tenho de ter mais disciplina nisto.
Passam 4. Já suo bastante. Primeiro abastecimento; não, não bebo nada, pode ser pior. Também não arrisco molhar-me, posso ficar mais pesado.
Estou perto da água. As marginais são excelentes invenções. Lembro-me de casa. Lembro-me de que gosto disto, de que se lixe, que já me estão a doer menos. Bandas a tocar, a primeira um jazz bastante cool – boa malha. A seguir djambés, também não está mal. Rockalhada, “Chega-lhes! Mete no mi, solta a pedaleira!” Cada um já distorcia como podia, o meu solo começava-se a desinibir. Ao meu lado, conversas pérfidas: “Então, também estás por cá?” “Sim, sim, hoje vim a esta” “E isso está bom?” “Claro, se vou à maratona de Nova York, isto tem de ser fácil” “Pois, mas eu este ano vou à de Paris”. À de Paris? À de Nova York? Está tudo doido? Maratonas? Eu aqui sofrer aos 6, na marginal…
7 Km. Sim, agora é altura de balanços. Estou bem, até estou admirado (continuam a passar por mim velhos, velhas, crianças e afins, estar bem é pensar que posso acabar). Acho que acabo. Eh pá, acho mesmo. O calor sobe, mas só faltam 3. Apanhamos um do grupo da frente. “Dor de burro”. Recupera algum alento e acompanha-nos cerca de 1 km e meio, antes de voltar a parar. Não desiste.
8 km, começa-me a apetecer acelerar um pouco. Mas ao outro não: “Segue, o meu joelho…”. Bem, o que eu quero é acabar, a táctica era “puxar” no último, caso me sentisse bem. Seja, dos 8 aos 9 vou relativamente lento (passa por mim tudo o que é gente… até tipos com calções do Benfica…). Mas isto vai, uma ligeira descida e uma ténue subida.
9. A placa dos 9. A bastarda da placa dos 9. “Ok, vou tentar dar-lhe!” “Ok, eu também”. E comecei a passar alguns tipos. Alguns tinham-me passado há escassos segundos. Todos sofremos, a questão deve ser quem sofre menos. Mas não pode ser só sofrimento, começo a pensar nas coisas boas; no banho, no almoço, nesta coisa do ar livre ao Domingo de manhã (Com tanta gente já de pé! Caramba!), num dos solos de ontem. Estou a chegar à rotunda, depois é só voltar. Se calhar “azimbrei-lhe” demais, este ritmo é exagerado. Mas é para seguir, com a passada larga as pernas doem menos, a “caixa” que aguente.
A meta e o caraças! Já a vejo. Eh pá tá quase, he pá, queres ver que chego lá, afastem-se calções do Benfica, maratonistas de Nova York e o camandro; vou acabar esta treta (eles não se afastam, hehehe). Huuuuuuu! Os “tapetes” registam o tempo do chip, caramba, deixa pisar esta porcaria bem, pisa phonix, se eles não me registam o tempo só me resta escrever um post sobre esta treta. É que não me posso esquecer disto; hoje Carcavelos é linda, é sensual, é jeitosa, dança bem e traz sonhos bonitos!
Bem, feitas as contas, tudo acabou (um com um tempo viperino, abaixo dos 50’, ui!). Autocarro para a estação de caminho de ferro, mas primeiro gatorades, fruta (sobretudo laranja partida aos quartos, que soube a picanha), águas e queques. Organização: sim senhor, é assim que estas coisas se fazem. Com a t-shirt e a revista, acho que já recuperei os 5€ (hehehe!).
Desgraçados dos habituais transeuntes do comboio, o excelso e apurado odor desta fornada (apenas parte dos cerca de 5000 participantes) deve agudizar o amor e a saudade à habitual ronha matinal de domingo. E o bitaite, cá está ele mais uma vez, galifões, que acabámos isto. Mas é genuína a alegria, sobretudo dos mais entradotes, quarentões de sorriso aberto. Ambiente fraternal, deve ser isso. A rapaziada quando se junta nestas coisas recupera qualquer coisa do bom ritmo cardíaco.
Lx

PS – o título, era o que eu sentia que os “cotas” me transmitiam, enquanto corriam que nem uns desalmados.

1 Comments:

Anonymous druida said...

parabens! derrotaste o homenzinho verde que vive dentro de cada um de nós!eheh. abraço

12:27 da manhã  

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