quarta-feira, setembro 21, 2005

“O menino dos bifes!”

Estou para escrever este post há bastante tempo e é melhor ser já hoje, para ver se angario a ousadia indispensável a uma alteração da conjuntura. Apesar do título parecer uma analogia à trilogia do Tolkien, a verdade é excessivamente mais dolorosa.
Ora bem, eu, que ando sempre a verbalizar contra o défice público, tenho incorrido num comportamento pecaminoso, à razão de umas quatro a cinco vezes por semana, lá pela hora do almoço.

Uma das instituições públicas alfacinhas que tem andado a fazer furor na imprensa nacional (parece que há por lá uns tipos que apelidam outros tipos de ordinários, se estes últimos se recusam a cumprimentá-los) congrega no seu seio uma realidade que nem todos conhecem (é assim, do género, submundo). Trata-se da rede de refeitórios de que a dita instituição dispõe.

Ora, acontece que um deles se situa perto do local de peregrinação da minha incompetência diária. Demasiado perto. Vai daí, eu e mais uns mancebos (rapaziada igualmente adepta da refeição “prato pirâmide”) temos aproveitado as instalações para estabelecer com elas uma relação comercial de carácter regular. E é aqui que tudo se complica. As senhoras que trabalham no local em causa, todas já de uma idade respeitável, acham piada a esta romaria (será que sabem que o pessoal não é propriamente funcionário lá do sítio? Ainda me tomam por engenheiro ou fiscal...) e, às doses, já de si copiosas, acrescentam sempre um suplemento; não vá um de nós sofrer de algum desses problemas de subnutrição que por aí grassam (“a crise, meninos, a crise”). E nós tudo bem.
A ementa (para além de sopa e sobremesa) contempla sempre a opção de um “prato do dia” de carne ou peixe. E em opção, um bife. Um bife, disse eu; não um bifeco mal amanhado duma qualquer vaquinha em início de carreira. Não, é um bife que regularmente excede as dimensões da porcelana. Com ovinho a cavalo, batatinha frita (daquela a sério, nada de palermices congeladas), arrozonga e salada. Acontece que, apesar de já fazermos marcações de um dia para o outro (“não se esqueçam de marcar o cozido para amanhã, senão só apanham bifes!”); eu, pelo menos duas vezes por semana, azimbro-lhe com o dito filete. É que me sinto bem com aquilo. Assim que me sento e contemplo por breves momentos todo o esplendor da suculência do naco, pressinto como que a invadir-me uma sensação de êxtase e auto-realização. Comovo-me, até. É mais forte que eu...
Daqui resultam vários fenómenos, dos quais destaco apenas 3.
1. Aquele período entre as 14:00 e as 15:00, já de si estruturalmente improdutivo (agravado desde que optei por renunciar à dose diária de cafeína), tornou-se implacável. O corpo não responde, excepto em casos de intervenção sumária por parte da entidade patronal. Em todos os restantes cenários, a letargia domina.
2. Tenho o privilégio de contactar com autênticos ícones da referida instituição. Cito, apenas a título de exemplo, um que ultrapassa qualquer caracterização teatral com que eu já tenha deparado. Possui pormenores altamente distintivos, tais como o primeiro botão da camisa a estar apertado ser o imediatamente acima do umbigo, deixando a descoberto a primeira curvatura da proeminente liposidade e a farta pilosidade; o eterno palito ligeiramente descaído, em constante variação de flanco; tudo devidamente temperado com uma voz generosamente amplificada.
3. O meu próprio engordanço, de fácil constatação: desde a prancha de Bodyboard se afundar (no fim de semana passado, quem me visse de lado pensaria que eu estava a nadar, mas não; eu estava a remar em cima de uma prancha) aos jogos de futebol começarem a ter meia hora a mais (apesar de permanecerem nos sessenta minutos).

Bem, o título é o chamamento utilizado pelas senhoras da cozinha, quando o repasto já se encontra devidamente confeccionado. A entoação que lhe é conferida parece-me ter qualquer coisa de semelhante com a dada pelas falas daquela personagem do Herman José, a Maximiana.
Por esta altura, já só espero que um destes dois palermas não privatizem este recanto...
Lx

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

...quando nao a "camaras de filmar" por perto, somos todos iguais...

8:27 da tarde  
Blogger Jq said...

gosto de pensar que não

8:32 da tarde  

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