quarta-feira, julho 13, 2005

Eu queria largar o meu preconceito...

...em relação a certo cinema português, mas ainda não foi desta...

Embora encare as sessões de cinema ao domingo no CAE com total abertura de espírito, há filmes que eu de facto não compreendo, ou a interpretação que faço não me deixa retirar qualquer gosto pelo seu visionamento...atiro a toalha...

O "Adriana" é um desses filmes, faz-me pensar que o cliché de se afirmar que o cinema português é na sua maioria inacessível e pseudo-intelectualóide, tem de facto alguma justeza...mas, nem é bem isso que se passa neste filme, porque essas intenções ficam a meio...tanto as subtilezas artísticas de imagem, como as veladas críticas socio-políticas, religiosas ou culturais, são inseridas a martelo e desconexamente...

Por outro lado, eu não vejo no elenco actores de cinema, todos tratam as cenas como se estivessem num palco de teatro imaginário, o que lhes dá uma sensação de estranheza, uma sensação de não pertencerem aos locais onde ocorre a acção...cria-se um paradigma: de tanto "over-acting", tornam-se inexpressivos...perdoem-me a franqueza, mas as personagens mais honestas acabam por ser os mamilos omnipresentes da personagem principal e um papagaio chamado "Lola"...

Tenho pena que no retrato do "país real" que se pretendeu fazer, tenha-se sempre de incluir maioritariamente a Lisboa dos cabarets, dos travestis, dos gigolos, do fado...por mais fascinante que seja essa boémia, não é esse o cenário, com mais probabilidade de nos confrontar, quando aterramos perdidos em Portugal...

Resumindo, nem o filme é suficientemente caricatural, nem é sério na sua apreciação da realidade...esta incoerência mal gerida desiludiu-me...

Ocorre-me que tinha o mesmo preconceito com certo cinema europeu ou com o cinema francês, mas os filmes franceses que tenho visto, especialmente os que têm uma acção contemporânea, têm-me surpreendido pelo seu realismo que chega a níveis que o cinema americano (ou de Hollywood) normalmente não atinge. As personagens parecem gente de carne e osso como nós, o que nos dá a oportunidade de parar o tempo e observar a nossa vida de fora... permite e identificar e analisar as pequenas comédias e tragédias de que a nossa vida é composta...

O filme português mais visto o ano passado foi o "Sorte Nula", unanimemente considerado péssimo pela crítica, crítica essa que foi prontamente apelidada pelo realizador de “snob”, ”elitista”, ”pedante”, etc... ora, eu não sou crítico e muito menos tenho aquelas características e também achei que o filme não valia a ponta de um chavo...mesmo considerando a cena do strip da Carla Matadinho “y su compañera” pseudo-lésbica anónima...mesmo gostando muito de filmes de entretenimento puro, que eu chamo de “filmes pipoca”, o “Sorte Nula” nem isso fez, entreter-me...e o facto do Bruno Nogueira e o Unas participarem em tal coisa sem graça, deixa-me preocupado...mas quando a banda sonora é dos Xutos, pressente-se a desgraça... se bem que eu gostei do “Tentação”, que também tinha os Xutos...

Serve isto tudo para lembrar que somos nós todos que pagamos estes filmes por via de subsídios do estado...assim deve continuar a ser por uns tempos, porque a indústria ainda é débil, mas...é melhor ir vendo os filmes portugueses para observar como se gasta o nosso dinheiro e reclamar um pouco quando notamos que cinema é feito só para alguns, quer seja para elites culturais, quer seja para grunhos inconscientes, e não para todos...


Ps: Para que não restem dúvidas e não achem que eu sou parcial, aqui está a nota de intenções da realizadora para o filme "Adriana":

"Uma ilha mítica no arquipélago dos Açores corre o risco de desaparecer por falta de população. Adriana, filha do mais abastado patriarca, é enviada ao Continente com a missão de "constituir família por métodos naturais". Eis a situação.
O objectivo consignado a Adriana em breve se transforma num pesadelo equívoco: verdadeiro road-movie, odisseia sexual e photomaton do Portugal de hoje com as suas múltiplas vozes, cores, pronúncias, cantos, classes e trabalhos. Como continuam e não continuam os homens e as mulheres, as suas felizes e infelizes contradições, no "desconcerto do mundo".

A viagem de Adriana é um percurso pela orla atlântica dos Açores até ao Norte de Portugal; tapeçaria que deverá reflectir personagens a um tempo divertidas e actuais e fazê-las revelar-se em situações de comédia.
Adriana é uma comédia; uma feérie com os seus alçapões, um tom por vezes trágico e lírico, nada incompatível com o género. A afinação, a ironia, o ritmo são a difícil arte da comédia. O tom, o tempo justo. Nada a mais, nada a menos. A realidade, mesmo grotesca, ultrapassa a ficção.
Fazer sorrir, rir (há algo de melhor?) e não cair na caricatura, no traço grosso, na pornografia. Quis que Adriana fosse um exercício de ironia, benevolente mas por vezes cruel sobre o Portugal de hoje, com as suas muitas e variadas vozes. "É tudo falso, mas falso do melhor que há", diz a falsária que se faz passar por Adriana.

Simular uma idealização do país e lançar sobre ele um olhar claro. Neste filme há sempre alguém que se substitui a outrem. O que é verdadeiro e o que é falso? Não há julgamento. A única prova é o corpo (maravilhoso) dos actores. Prova da "grande ilusão" que é o cinema (e a vida).
Margarida Gil"
Quanto a mim falhou...

1 Comments:

Blogger Jq said...

Queria dois do que essa Margarida Gil estiver a tomar por favor, mas com gelo, que isso parece-me que dá estalo.
Essa Senhora quase que consegue dizer tão pouco em tantas palavras como eu. É melhor enviar-lhe já um convite para se juntar a esta desgraça, antes que ela se estrague...

11:40 da tarde  

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