quarta-feira, abril 19, 2006

Ou talvez não

Anda tudo entusiasmado com o novo casino. Comovido até. Já eu, sinto-me um pouco interrogativo.
Nestas coisas, quem se começa pelo discurso excessivamente moralista lixa-se, porque o jogo existe quer hajam casinos ou não. E vai daí, se calhar existe uma justiça redistributiva mais justa com um casino; eles são extremamente tributados, receitas que podem servir para que um Estado faça aquilo que tem a fazer (isto, claro, do ponto de vista de um não-neoliberal com complexos de esquerda, que ainda se atreve a sugerir que o Estado tem algumas funções).
Entrei poucas vezes nas salas de jogo tradicional (aquela das roletas, cartas e dados; em que cada aposta será, em teoria, mais elevada). Não sei porquê, achei aquilo doentio. As magnificas instalações, os ordenados do pessoal, a banda que tocava lá fora e as bebidas baratas estavam, na realidade, a ser pagos por aqueles senhores. A mim pareceram-me doentes, estavam a gastar mais que o meu ordenado em cada aposta de cada roleta (alguns jogavam em 4 roletas ao mesmo tempo), sendo que cada jogada deve demorar qualquer coisa como um minuto. As expressões não eram propriamente de felicidade, estavam assim mais com um ar de consumidos.
Depois estavam as slots cá fora. Estes também estavam a trabalhar bem. Segundo dizem os entendidos, o jogo tradicional tem vindo a perder adeptos para as slots (e também porque os registos de entrada e pagamentos são mais apertados e há pessoal um bocado alérgico a modernices). Vinha um artigo no “Público” num dos dias desta semana a explicar que as slots viciam mais. O vício, parece-me, pode ser entendido como um gasto excessivo que pões em risco a estabilidade económica de alguém.
Provavelmente sou quadrado e sei que o jogo existirá sempre. Mas, se calhar, defender acerrimamente um casino pelos benefícios que uma cidade irá ter, vir citar teorias de redistribuição “ad-hoc” sem ter em conta o outro lado da equação (o dinheiro privado que não vai para outras coisas, e se calhar até iria se não houvesse uma estrutura legítima e legal a vender o seu produto com o profissionalismo exigido) parece-me um bocadinho descomedido. Ao menos uma duvidazita, não?
(Entretanto, ainda estou a dever um jantar da última aposta que fiz e ando aqui mortinho por um “King”.)
Lx

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