segunda-feira, julho 31, 2006

Areia...

Houve aí uns anos, os de faculdade, que estive chateado com a praia. Aliás a versão oficial ainda é´: “Não gosto de praia”. Por essas alturas tinha o Verão todo para lá ir, a praia estava já ali, a 1 km e, mesmo assim, só lá malhava com os costados metade de meia dúzia de vezes.

Se quisessem provar o meu temperamento no seu pior, façam como ela fazia: telefonava e dizia: “São 10 da manhã, porque é que não estás na praia?” - a resposta negativa era seca, mas diplomática, o que me passava pela cabeça era uma coisa que só seria traduzível por um chorrilho de asneiras. Vejam, o pecado era duplo: por um lado implicava ser de manhã nas férias e eu não estar na cama e por outro era estar num sítio de que não gostava: a praia...

Este meu modo de vida dava-me bom aspecto. Não ia á praia, mas era verão e de modos que a minha cara não ficava bronzeada, mas adquiria um tom que eu chamaria de amarelo-malária. As minhas pernas permaneciam brancas e não disfarçavam o vermelhusso do borbulhasso dos pêlos encravados...(espero que já tenham feito a digestão)...

Não me entendam mal, eu tenho boas recordações da praia. Os dias na Murtinheira com o papá e a mamã e a jogar com o mano às defesas com aquelas bolas de borracha muita’ leves. Os dias na Praia do Hospital a picar carreiras em meia prancha de esferovite que arranhava a barriga, acompanhado pelo grupinho de verão da minha prima de Lisboa ...(agora ocorreu-me que esses verões eram muito parecidos com os episódios do “Morangos”, mas sem telemóveis, em que eu fazia de imberbe e ranhoso primo mais novo dos adolescentes. Ui...assustador)... Os responsos do treinador de natação quando o escaldão me impedia de treinar...Os dias no Cabedelo quando me orgulhava de ser o pior bodyboarder de todos os tempos a dropar aquelas ondas...

Agora começo a dar outra vez valor à praia, talvez seja porque não tenho muito tempo para lá ir...Ontem estava de prevenção à fábrica. Fui para a praia, mas deixei no carro um par de calças e umas botas para me dar um ar digno caso fosse chamado. Se me telefonassem o meu interlocutor iria ouvir o barulho do quebra-côco...

Quando dizia que não gostava de ir à praia, justificava com o facto de não querer passar o dia estendido sem fazer nada, ainda para mais sem tê-vê-cabo. Agora aprecio o “zen” de tal actividade...ou ressono alegremente, ou viajo profundamente nas profundezas da mente. Desvio o olhar do sol, fixo no horizonte um bocado de céu exclusivamente azul sem variação de tons, o mp3 debita melancolia islandesa e por isso, quando dou por mim, já estou a imaginá-la a enumerar todos os motivos lógicos e racionais para eu não me aproximar e eu a retorquir ilógicas e irracionalidades para o fazer...De volta ao mundo real, enquanto sacudo a areia das sandálias, lembro-me amargamente que tal conversa está longe de acontecer.
Que diabo, por estes dias até me dou ao trabalho de aplicar um creme pós-sol, 100% natural, que uns brasileiros que visitaram a fábrica me ofereceram. A sensação é única, somos invadidos por uma brisa fresca, parece que mergulhei num caldeirão de halls-mentóóóólyptus versão pinguim...brrr...

Gosto do meu ar mais saudável e menos amarelo e até a minha hérnia me permitiu falhar estrondosamente uns pontapés de bicicleta quando jogava aos centros junto ao mar com o pessoal...boa vida.

1 Comments:

Anonymous g. said...

pobre priminho, sofreste assim tanto?! eu não vejo os morangos, mas acredito que haja semelhanças com aqueles verões adolescentes...

12:53 da tarde  

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