segunda-feira, setembro 26, 2005

Irracional desinspirado

Contaram-me que, certa vez, um treinador de basquete, ao exasperar com a “exibição” da equipa, se virou para o banco e disse: “tu, tu, tu, tu e tu, entrem!”. Um dos “tus”, mais estupefacto que o nosso Aníbal, terá perguntado timidamente (até porque isto era um jogo dos escalões de formação) “Mas, para que posições?”, “Não quero saber, tirem-me aqueles palhaços dali”.
Rochemback, Carlos Martins, Custódio e Hugo Viana. Para mim, era este o meio campo ideal no ano passado. Entretanto surgiu o João Moutinho, o que permitiu fazer aqui umas variações. Este ano não há Rochemback. Este ano não há Hugo Viana. Por enquanto, o Carlos Martins e o Custódio estão lesionados. Sobra então o João Moutinho.
Combinado que estava encontrar-me às 20:00, saí de casa assim que se confirmou que o Alonso era campeão do mundo. Mas eis que chegado à entrada do Metro me lembrei que faltava algo. Pois, a “Box”. Por esta altura eu devia ter começado a desconfiar que alguma coisa não ia correr bem... É que a noite foi mais ou menos nesta toada. Alcançaram-se os objectivos, mas com excessivo dispêndio de emoções.
Morno, tudo muito morno no início; do público ao futebol. Instalou-se uma certa falta de entusiasmo, que, em Alvalade, rapidamente descamba para um coro de assobiadelas e espírito de auto-flagelação.
Aos poucos, o Polga começa a falhar bolas fáceis; felizmente, não dão em nada. Falham-se passes, joga-se mal. Finalmente uma triangulação bem feita, o Deivid aparece rapidíssimo vindo não se sabe bem de onde, passa um, consegue adiantar a bola face ao guarda-redes e cai. Estádio em pé. O árbitro apita, aponta “penalty”. Grande confusão, muitos jogadores a reclamarem. Vejo um cartão vermelho, mas não percebi bem para quem era. Fica toda a gente em campo? Começo a ver o Marco Tábuas a aquecer, mas o Moretto continua lá. Perde-se tempo, muito tempo. Cerca de 7 minutos entre o lance e a entrada do novo guarda-redes. O público não para de reclamar - hoje não é um bom dia para ver futebol.
Liedson fixa a bola. Finalmente, palmas, finalmente palavras de incentivo, finalmente os cânticos. Mas o remate sai denunciado, frouxo e à figura. Vêm-me à memória as boas exibições do Marco Tábuas contra os três grandes...
Bem, temos um a mais, pior não ficámos. O Vitória começa a queimar tempo sempre que pode. O público ainda mais nervoso. Entrada dura sobre o Tello, nem falta é. Contra-ataque que não dá em nada. Sai o Tello lesionado e entra o Paíto; mantém-se o “esquema táctico”. Parte do público não concorda, mas a estreia do Moçambicano no campeonato sempre dá direito a palmas. Ele não é muito certo a defender, nem muito certeiro a atacar; mas não lhe faltam nem velocidade nem vontade. Curiosamente, assim que intervém parece calmo (o mais calmo em campo...). À segunda, domina bem a bola (!) e, com pouco balanço, faz um bom centro. Alguém consegue dominar de peito e escapar-se ao defesa. Parece o Liedson. Rematou! Golo! Finalmente boas notícias. E era o Deivid.
Na segunda parte, Peseiro, “o grande estratega”, decide tirar o Luís Loureiro e meter o Wender. A explicação, não sei bem qual foi, mas admito que os quatro cartões amarelos do Loureiro nesta liga (a um da suspensão) e a lesão do Custódio possam ser bons motivos para gerir o plantel - jogo em casa, contra uma equipa que tinha menos um jogador em campo. Já quem iria ocupar o lugar de trinco, estou ainda sem perceber. Ou então era para jogar sem trinco.
Não se jogava futebol, o que fazia com que “Pinigol” voltasse a ser o avançado centro suplente mais aclamado do mundo - creio que foi Eça de Queirós que um dia escreveu sobre um político que, por nunca falar, na assembleia, era o mais prestigiado de todos. Do género Sócrates (e Jerónimo) na campanha para as legislativas e Cavaco nas presidenciais. O problema é que, quando o fez, a sua aura desapareceu. Chamemos a este fenómeno o "efeito Pinigol”. Mas para entrar o Pinilla, quem sairia? E quando é que estes tipos começam a jogar à bola? O melhor era tirá-los a todos. Todos, menos o Tonel (sempre a despachar), eventualmente o Douala (é caso para dizer que a incerteza é uma técnica apenas ao alcance de alguns – magníficos momentos como o da “bola bate no joelho esquerdo e depois no calcanhar direito, e com esta deixo dois para trás porque sou mais rápido”) e, claro (pensava eu), o Liedson (que correu imenso a atacar e a defender) e o Deivid, dupla que com o meio campo do ano passado... De resto, salvo algum que não me lembre, acho que era de lhes aplicar um : “tu, tu, tu, tu e tu, entrem!”
Sai Liedson e entra o Beto... Numa tentativa de esclarecer o meu conturbado espírito, tentei efectuar uma análise fria e esquemática da situação. Estamos, portanto, a ganhar 1-0, em casa, contra o Vitória de Setúbal, que desde os 19’ tem um a menos. Tiramos um avançado, melhor marcador do ano passado, para colocar um defesa central e subir um dos centrais para trinco. A complexidade táctica destes movimentos só está ao nível eloquente de um predestinado; alguém como o visionário que desencantaram para treinador da equipa de futebol de 11 profissional do Sporting. Eu nunca imaginei foi que houvesse tanta gente a conhecer a mãe do Peseiro na intimidade. Nem a intensidade do "efeito Pinigol".
Acabou. Felizmente, não empatámos. Como no ano passado.
Lx
PS - sem fotos, que isto hoje também não estava a funcionar

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